23 de Abril de 2014

Mães com sentido de humor (e ainda o Dia Mundial do Livro)

Acontece-me sempre que tenho filhos (até parece que já tive uns quatro...). Logo nos meses a seguir ao nascimento, consigo manter mais ou menos os hábitos de leitura, aproveitando o tempo em que dormem ou mamam. Mas por volta do quarto ou quinto mês, tendo a adormecer à segunda página, perco o fio à meada, pego noutro livro, volto a perder o fio à meada, às tantas já ando a ler quatro ou cinco livros ao mesmo tempo e acabo por não ler nenhum.

Desta vez, por ter um telemóvel daqueles inteligentes que faz tudo menos fritar batatas, o telemóvel acaba por ser a minha grande companhia quando tenho de dar de mamar a meio da noite. Podia ler livros no telefone, podia, mas acabei por substituir a leitura de livros pela leitura de blogues, não só aqueles que sigo diariamente, como até mesmo a leitura integral de alguns (poucos) blogues que me fascinaram ao ponto de querer descobrir o que se escondia nos arquivos.

Li na íntegra uns quantos desses blogues, maioritariamente blogues de mães como eu para quem a maternidade não é um quadro cor-de-rosa cheio de fofos e folhos, mas sim uma realidade dura que nos cansa e enche de culpa, mas também nos recompensa com aqueles momentos de ternura e auto-realização que nos marejariam os olhos de lágrimas se fôssemos do tipo romântico. Daí que, nos últimos cinco meses, a meio da noite, enquanto vocês dormem, eu ando a investigar os arquivos dos blogues do outros, familiarizando-me com as autoras desses blogues e as suas famílias como se de personagens literárias se tratassem. Não as conhecendo pessoalmente, resta-me imaginar como serão os seus gestos no dia a dia, a sua voz, as suas roupas, a forma como fazem festinhas ou gritam com os filhos.

Foi mais ou menos assim que fui dar ao blogue da Inês Teotónio Pereira, um blogue divertido sobre as aventuras de ser mãe de seis filhos (sim, seis!), e ao seu livro Humor de Mãe. Mesmo que algumas das suas ideias de direita sobre o aborto, a co-adopção e outras que tais estejam em extremos opostos das minhas, divirto-me muito com a maneira irónica como escreve sobre a maternidade e revejo-me bastante em alguns pontos. Foi este o livro que comprei ontem (porque a Feira do Livro ainda tarda) e é esta a recomendação que deixo aqui para o Dia Mundial do Livro. Por doze euros (e uma capa que faz lembrar a vaselina Couto!), vale a pena dar algumas gargalhadas e pensar que não estamos sós nesta dicotomia de amarmos os nossos filhos, mas às vezes já não os podermos ver pela frente.

Aqui um pequeno excerto.

Feliz Dia do Livro

Ontem, numa livraria, um senhor de alguma idade e desmazelo, uma espécie de cientista maluco das letras, pedia conselhos sobre a obra mais conhecida de Fernando Pessoa. Passaram-lhe a "Mensagem" para as mãos e ele perguntou se ali se encontrava tudo o que de mais importante o poeta tinha escrito.

Ó lá! Daqui vai sair boa, pensei. Agucei o ouvido e pus-me à espreita.

Depois de folhear algumas páginas, ler meio desconfiado, virar e revirar o livro, o senhor entrega-o à menina, agradece e despede-se em jeito de lamento:

- Uma pobreza de espírito, este Pessoa. Estrofes irregulares, desritmadas, sem respeito pelas regras... Ai, que miséria! Os alentejanos é que valem a pena ler. A Florbela e esses. Agora o Pessoa... É que não há quem o entenda.

O empregado teve alguma dificuldade em conter o riso enquanto fazia a minha conta. E eu pus-me a pensar em todos os heterónimos de Pessoa. Se calhar, coitado, nem ele próprio se entendia, por isso é que teve de se recriar tantas vezes.

De qualquer maneira, sendo hoje o Dia Mundial do Livro, acho que deviam ir ler qualquer coisa. Não necessariamente Pessoa. Mas também pode ser.

21 de Abril de 2014

O importante é não perder a compostura

No fim-de-semana passado fui a um baptizado e levei uns sapatos de salto que, não sendo muito altos, a meio da tarde já me provocavam um desconforto tal que nem conseguia descer escadas sem parecer uma atrasada mental.
Foi assim, nesta tormenta, que levei a Alice ao piso inferior para lhe mudar a fralda. Sem elevador, as escadas de acesso eram bastante íngremes para o meu sapatinho de donzela e, muito pouco habituada a estas andanças, comecei a descer as escadas uma a uma, tentando equilibrar-me com a bebé meio deitada num braço e o fraldário na outra mão. Lá em baixo vinha uma outra mãe, daquelas que fica logo linda e vaporosa depois de sair da maternidade, com um corte de cabelo todo fashion e óculos escuros à diva, a subir as escadas tal qual uma pluma de pavão (já tinha reparado nela e proferido interiormente uns quantos nomes feios).
Ora eu, que gosto pouco de fazer figura de anormal, achei que não lhe iria ficar atrás, mesmo que não me tivesse penteado para o evento, muito menos aquela coisa do vaporoso, e resolvi descer também eu as escadas qual pluma no ar, leve como uma donzela e sem ter de olhar para baixo porque "saltos é o meu nome do meio"!
Esqueci-me foi que levava uma bebé nos braços e que as escadas tinham um corrimão à altura do meu cotovelo. Na verdade, eu não me esqueci. Na verdade, eu suava por dentro a tentar equilibrar-me sem deixar cair nada, fraldas ou bebé, mas tão focada em não deixar cair nada acabei por me esquecer de afastar a cabeça da Alice da parede.
E foi então que o inevitável aconteceu. Ao dar balanço para descer as escadas sem parecer uma anormal  (percebo agora que não me saí bem), dei com a cabeça da Alice no corrimão. 

Esta é a parte em que vocês esperam que eu diga que parei imediatamente de descer, examinei a cabeça da piquena e a acalmei, alheia a tudo o resto. A história acabava aqui com uma boa lição de moral, certo? 
Errado.

Houve aqueles dois segundos de espera entre bater com a cabeça e começar a chorar. Foram dois segundos de profunda esperança. Esperança de que ela não se tivesse aleijado a sério, mas, principalmente, que ninguém tivesse dado por nada, sobretudo a lambisgóia de penteado fashion! Foram dois segundos em que ainda consegui descer mais um degrau como se nada fosse, a tentar equilibrar-me sem deixar cair nada e a cerrar os dentes com aquele sorriso amarelo não-se-passa-nada.

A lambisgóia, provavelmente, não devia estar a acreditar na negligência que acabara de testemunhar, pois ainda parou a meio das escadas, talvez com a intenção de me avisar "Olhe que a sua bebé bateu com a cabeça...". Mas eu, como se nada fosse, achei por bem nem dar pela sua presença e fingir-me surpreendida quando a Alice, por fim, abriu a goela. 
- Oh, bebé, o que foi bebé? Tem a fraldinha cheia, tem?

A lambisgóia seguiu caminho e eu, quando cheguei lá abaixo, ainda encontrei uma amiga à porta da casa-de-banho a quem confidenciei, com o ar mais natural do mundo:

- Nem sabes, acho que acabei de dar com a cabeça da Alice no corrimão...




* Para que conste, está tudo bem com a Alice. E, até a lambisgóia se ir embora com o seu rebento-capa-de-revista, fui muito bem-sucedida em escapar-me da sua vista.

20 de Abril de 2014

19 de Abril de 2014

Dormir

Ter insónias é capricho de quem pode dormir.
Quem tem filhos pequenos (e rinossinusite), como eu, olha para trás para o tempo de solteira e para as noites de insónia parva e tem vontade de dar estaladas a si própria. Ora é a filha pequena que quer mama ou perdeu a chucha, ora é a outra filha pequena que só quer a mamã e quer água ou chichi ou só porque sim, ora é o nariz que se fechou outra vez, ora é a trigésima série de espirros que não espera a chegada do lenço, hoje não consegui dormir mais do que hora e meia seguida. Isto para quem está de férias (porque a licença já se acabou), é sofrível, o pior vai ser daqui a 18 dias quando voltar a trabalhar. 
As pessoas com filhos pequenos (e rinossinusite) deviam beneficiar de uma imunidade especial que fosse para além dos 30 dias permitidos de assistência à família. Em trabalhos como o meu, em que até a posição das virgulas é sujeita ao mais rigoroso escrutínio, receio que em dias como o de hoje não consiga sequer encontrar a tecla da vírgula, quanto mais perceber onde é que ela encaixa numa frase.
Tenho, assim, 18 dias para continuar a dormir mal e me poder queixar. Depois disso acabaram-se as frescuras.

Boa Páscoa.

17 de Abril de 2014

Lisboa marsupial

Fui fazer coisas para a Baixa de Lisboa e cheguei a várias conclusões:

1. Os senhores que projectaram o parque de estacionamento subterrâneo da Praça da Figueira esqueceram-se que para os utentes que andam de carrinho de bebé não serve de muito haver elevador até ao -1 se para subir à superfície têm de ir pela rampa dos carros. Para subir o senhor dos bilhetes ajuda, para descer é um bocado à sorte.

2. A maior parte das lojas não tem espaço para passar um carrinho de bebé, pelo que, a juntar ao ponto 1, é uma grande burrice levar o carrinho para a Baixa.

3. Trocado o carrinho pelo marsúpio, virada para o mundo, a bebé é acarinhada por tudo quando é gente que gosta de bebés, mas não pede licença nem tem grande noção do estado de impureza das suas mãos. Às tantas a mãe aborrece-se e pára de sorrir.

4. Os turistas não conhecem o conceito de dar prioridade a bebés, salvo aquela senhora espanhol que gritou "Cuidado"!

5. As Padarias Portuguesas já são mais que as mães, mas continuo a preferir a bela da bica na tasca da esquina.

6. No Camões há toda a espécie de malucos, artistas e malta que gosta de dar nas vistas mas não é nem maluca nem artista, só parva.

7. Às vezes é cansativo andar com um bebé às costas, mas porra que esteve um dia mesmo fixe.

15 de Abril de 2014

Remendos de crochet

Aprender a costurar foi das coisas mais úteis que podia ter feito. Vai-se a ver e aprender crochet também. Porque de vez em quando dá para aliar um ao outro e salvar uma peça de roupa que, de outra maneira, iria direitinha para o lixo.

A Inês herda muita roupa das primas e amigas. Um dos vestidos, que ela adorou, veio com uma nódoa que nunca consegui tirar. Como nunca gostei muito do vestido, pensei em fazê-lo desaparecer misteriosamente, mas seria uma injustiça, pois é um dos "vestidos de princesa" que a minha filha adora.


Uma solução seria retirar o forro, mas se é o forro que lhe dá o ar rodado, mais valeria deitá-lo para o lixo. Pensei em colocar um daqueles apliques termocolantes, mas depois lembrei-me de fazer um remendo em crochet do tamanho da nódoa.


Assim, em menos de nada fiz dois quadrados que uni e cosi com linha da mesma cor. A nódoa ficou apenas visível do avesso.



O aspecto final fica bem discreto.




O processo todo não demorou mais de meia hora e ficou uma solução bem mais barata e ecológica do que deitá-lo fora e comprar outro.

14 de Abril de 2014

Democracia na linguagem

À conversa com a Inês, brincando a um jogo sem grande sentido:

- Vou-te comer os olhos, a boca, as maminhas, as costas, o corpo, os pés, os dói-dóis e os múscales.
- Os quê?
- Os múscales.
- Ah... Os músculos.
- Musculares.
- Músculos...
- Musculares! Cada um diz como quer!

11 de Abril de 2014

Dos segundos [versão actualizada]


A propósito deste artigo da Up To Lisbon Kids sobre ter um terceiro filho, e eu que (ainda só) vou no segundo, vai  não vai lembro-me de algumas diferenças sobre a forma como as minhas duas foram/são recebidas neste mundo.

Começando pela diferença abismal do número de visitas no hospital e em casa na era do puerpério (salvo os avós e dois casais amigos, a Alice foi praticamente ignorada por toda a gente) e do tipo de prendas que recebemos para ambas (enquanto a primeira recebeu desde roupa a brinquedos, linhas completas de cosméticos e banheiras, a segunda foi corrida a rocas...), a Alice leva com todos os brinquedos e roupas usadas da irmã e é se quer. As roupas ainda as lavei antes de as usar. Mas os brinquedos foram directamente da caixa onde estavam guardados há dois anos para a boca dela. Nem vale a pena dizer que, quando foi da Inês, esterilizava tudo e um par de botas. Pelo menos até perceber que não era preciso cair em exageros.
O tipo de fraldas usado também sofreu uma grande alteração. Na verdade a marca nem importa. O que importa é a promoção. Só sou esquisita com as toalhitas, que compro na farmácia, mas de resto a mais nova é muito pouco dada a frescuras. Tanto que, à força de ter a mais velha para deitar, ler a história e o diabo a sete, a Alice aprendeu a adormecer sozinha bem cedo.

Isto são as coisas óbvias.

Depois há aquelas nuances da segunda maternidade mais relaxada como quando saio à rua sem fraldas nem toalhitas, a miúda bolça e eu limpo com o que está mais à mão: a écharpe. Assim como assim, ando sempre despenteada, com nódoas de bolçado e a cheirar a papas e leite azedo.
Sim, porque há coisas que nunca mudam.

10 de Abril de 2014

Diz que não é um blog de moda...

... mas que este colar vai ficar muito bem com a minha Wiksten dos flamingos, lá isso vai.


Um grande bem-haja à NikibiDesigns (uma empresa portuguesa, com certeza!) pela simpatia e pelo fantástico serviço, pois não só me enviou o colar com uma rapidez inesperada como ainda me ajudou a perceber os tamanhos reais dos colares em polegadas. Foi a minha estreia na compra de bijuteria online e, sem esta imagem para me orientar (cortesia da NikibiDesigns), bem que podia ter corrido mal.


Eu, que nem sou nada destas coisas...