21 de Outubro de 2014

Das gentes cá da terra

Pexitos é o nome dado aos habitantes típicos de Sesimbra, mas o termo também se pode referir ao sotaque da região. Não há preconceitos particulares sobre os habitantes deste lado da costa, assim como há com relação aos alentejanos, nem lhes conheço anedotas. Mas, do pouco tempo que já cá estou, já deu para perceber que são gentes sem pressa para muita coisa, nem grande empenho pessoal em estar à altura dos compromissos. Isto não é uma crítica, é assim e pronto, e decerto haverá quem contrarie a tendência, como a senhora da loja das cortinas de banho que efectivamente me encomendou o raio da cortina sem eu lhe ter expressamente pedido que o fizesse e depois lá tive de a comprar.
Talvez seja por culpa do mar que está aqui tão perto ou dos ares da Arrábida e dos arco-íris que fazem parar os carros. E para quem vem de fora e está habituado ao profissionalismo e rapidez dos serviços da capital, é capaz de ter de respirar fundo várias vezes. Senão, vejamos alguns exemplos:

1 - O dentista que foi à rua tratar de um assunto e "deve mesmo mesmo estar aí a aparecer", mas me deixou 50 minutos à espera para ser atendida. 50 minutos. Repito: 50 minutos. Quando ele apareceu e me disse: "Vá, vamos lá ver isso depressa que tenho de sair", escusado será dizer que não me fiquei pelo sorriso amarelo.

2 - A costureira a quem fui deixar umas calças delicadas que não me atrevi a pôr na minha Juki e que me mandou lá ir a determinado dia, e que jeito me dava vestir as calças no jantar que tinha nessa noite, mas que, afinal não tinha as calças prontas nesse dia, nem no dia seguinte porque em vez das calças tinha um papel na porta a avisar "Fui buscar a minha filha" e quando, ao terceiro dia, lá voltei não lhe consegui resistir ao sotaque pexito (ver em cima) e não reclamei como queria ter reclamado. O irónico foi que, ao chegar a casa e experimentar as calças, tive aquela surpresa das-calças-que-vamos-buscar-à-terceira-vez-e-que-a-senhora-afinal-se-esqueceu-de-fazer-a-bainha. Fico cansada só de pensar nas vezes em que terei de lá voltar outra vez se decidir reclamar a sério.

3 - A professora do ginásio onde me inscrevi para a turma da hora de almoço que é composta por pessoas que frequentam a aula há anos e, por isso, é compreensível que se tenha esquecido de avisar a aluna forasteira que à sexta-feira não havia aula porque ela tinha de ir tirar os pontos às mamas na sequência de um implante mamário que lhe fica muito bem, mas pronto.

8 de Outubro de 2014

A liberdade às quatro da tarde

Para comemorar o meu primeiro dia como freelancer, deixo aqui um artigo que só frisa as coisas boas disto de - gente maluca! - deixar um emprego para a vida e atirar-se à incógnita do self-employment (há coisas que em inglês ficam tão melhor) e que até cria a ilusão de que a malta freelancer tem muito tempo livre. Por exemplo, eu hoje, no meu primeiro dia oficial como freelancer, fui levar as miúdas à escola, fui ao cabeleireiro, vim a casa, trabalhei meia-hora, saí e fui ao ginásio, voltei, trabalhei mais hora e meia, concluí o projecto que tinha para hoje, telefonei à Segurança Social a dar a boa-nova (eles já sabiam, os cuscos!) e agora estou a pensar se vou mudar os lençóis da cama, estender a roupa ou fazer um bocadinho de croché (comecei um poncho para mim que não vos digo nem vos conto) antes de ir buscar as crianças. Mas é claro que isto é só enquanto os trabalhos ainda não chovem, só chegam às pinguinhas. O meu homem diz que eu tenho de saber aproveitar os momentos sem trabalho e é isso que quero aprender a seguir ao MemoQ.
Entretanto, há uma coisa muito importante que a senhora do artigo não frisou, mas que vocês vão perceber muito bem com este exemplo: o meu homem ia sozinho a Bruxelas ver o Cat Stevens, mas já não vai, paciência, porque houve ali um momento em que eu me lembrei que era freelancer e que podia trabalhar em qualquer lado desde que tivesse um computador e ligação à Internet e, pronto, comprei um bilhete espontaneamente sem ter de fazer o odioso choradinho das férias. Ah. Liberdade.

30 de Setembro de 2014

Voltar a pegar nas agulhas

Costumo ir nadar na pista ao lado enquanto a Inês tem aula de adaptação ao meio aquático. Mas hoje a recepcionista era outra e tinha outro horário na mão e disse-me que àquela hora não havia natação livre. Saí, um pouco irritada, e dirigi-me ao centro da vila, ainda com o cheiro a cloro nas narinas e uma frustração a transbordar da algibeira. Entrei na biblioteca, folheei as revistas, ainda me sentei para logo me levantar como uma mola. Não consegui decidir se comprava um Twix ou parava na marginal a olhar o mar, por isso entrei na Universal para ver que tal as novidades. Foi aí que o vi, perdido no meio das revistas espanholas de crochet e tricot. Trouxe-o, iludida pela senhora asiática das fotografias. É que os livros japoneses de costura, crochet e tricot têm fama de ser bons, mas este, afinal, de japonês tem muito pouco, a começar pelo título: Mon cours de crochet. Não fiz caso e folheei-o avidamente com aquela esperança de que a minha recém-adquirida vida de freelance me permita voltar às agulhas. Infelizmente, ou felizmente, desde que saí da empresa ainda só consegui fazer a bainha de meio cortinado e um babete para o Nenuco, mas estou tão esperançosa de voltar a ocupar os meus serões de roda dos pontos altos em vez de traduzir até às tantas que só folhear este livro me faz feliz.
Em português aqui.








Mesmo feliz, acabei por comprar o Twix.

27 de Setembro de 2014

Arco-íris

Há muito tempo que não via um arco-íris assim, tão vivo, tão nítido, de uma ponta à outra. A viagem do centro de Sesimbra até casa pela Arrábida demorou o triplo do tempo. Devo ter parado umas 5 vezes para apreciar a paisagem, o formato três-dê das nuvens, a imensidão do arco-íris, para desenhar no ar as sete cores como na música dos Caricas ("Mamã, mas eu já não acho muita piada aos Caricas. É para bebés, sabes..."). As minhas filhas olhavam para mim surpreendidas e divertidas com os meus guinchos de alegria. Há muito tempo que não via um arco-íris assim, tão vivo, tão nítido, de uma ponta à outra. A câmara do telefone não conseguiu apanhá-lo em toda a sua extensão, mas juro que dava para ver onde começava e onde terminava, os potes de ouro esperando em cada extremidade. Pus-me a pensar se, de todos os arco-íris que já vi na vida, nunca tinha prestado a devida atenção a nenhum ou por que é que só agora é que me espanto por ver um arco-íris assim, tão vivo, tão nítido, de uma ponta à outra. Depois lembrei-me. É que vivi demasiado tempo nas grandes cidades onde os prédios altos só deixam vislumbrar uma parte do arco. E acho que acabei por perder a esperança nos arco-íris da vida. ("Se chove e faz sol, aparece o arco-íris, pois é, mamã?")

Sete anos depois (e eu que ligo tanto a coincidências cronológicas), tenho a oportunidade de uma nova vida. Nova casa, nova terra, novo emprego. É tudo quase tão novo que, por momentos, me deu medo e aquele aperto no peito que não me deixava respirar ali entre a uma e as duas. Mas de repente, a sensação de aperto passou, o coração acalmou e percebi ali, com aquele arco-íris, que não pode chover para sempre.

O texto pode estar cheio de clichés, mas as fotos são sem filtro.





12 de Setembro de 2014

Viver no campo


Costumo dizer que vim viver para o campo, mas é só para me armar. Isto não é campo. Campo, para mim que nunca vivi no campo, é viver numa casa com uma árvore com baloiço, couves no quintal de trás, roupa a secar na corda, 3 ou 4 cães a guardar a propriedade, uma seara a perder de vista e bicharocos a saltitar por todo o lado. A casa mais próxima ficaria a, pelo menos, 3 km de distância e o único estabelecimento comercial de grandes dimensões seria o da vila, a 15 km.

Ora, entre isso e o sítio onde vivo agora há algumas semelhanças, é certo, como a roupa a secar na corda e os bicharocos que, volta e meia, dão um ar da sua graça, mas as diferenças são mais que muitas. Por exemplo, em vez de couves no quintal há alfaces na varanda. Não há searas a perder de vista, mas há a Arrábida como pano de fundo e um relvado onde nos deitamos numa mantinha com o cheiro no ar da relva acabada de cortar. Não há árvores com baloiço, mas há um limoeiro e uma laranjeira que vão deixando cair frutos em cima das nossas cabeças quando vamos à garagem. A casa mais próxima fica a 50 metros e os cães são substituídos por gatos que não guardam coisa nenhuma, mas trazem pulgas para casa como oferenda de amizade. Ainda por cima são todos iguais uns aos outros e difíceis de distinguir como o raio (em contrapartida, têm nomes muito nobres como Pompeu, Teresinha, Elvirinha... e um dia ainda vos falo do galo Sansão que cá viveu em tempos). À nossa porta passam os miúdos a caminho da escola e ao fundo da rua há mais centros de explicações do que cafés em todo o lugarejo. Portanto, animação é o que não falta.

Mas gosto de dizer que vim morar para o campo. Porque na cidade a minha filha não acorda intrigada com o galo da vizinha que canta tão cedo. Na cidade não podemos fazer o jantar com a porta das traseiras aberta. Na cidade as pessoas na rua não têm um sotaque meio alentejanado e o carteiro não apita à porta de casa para me entregar uma encomenda. Na cidade a piscina para a miúda não custa só doze euros por mês. Na cidade o meu gato não espera por mim ao portão do quintal. Na cidade não vejo borboletas aos pares quando vou a pé ao café, nem caracoletas a namorar no vaso do cebolinho.
Não cidade não há nada disto. Há outras coisas, é certo, mas tenho cá para mim que na grande cidade o Baltazar e a Blimunda eram capazes de durar pouco. Estou a falar aqui dos moluscos, é claro.

10 de Setembro de 2014

A casa



Não há como um dia cinzento de chuva para nos lembrar de que temos uma rotina. A minha (nova rotina) ainda está a instalar-se calmamente, com a paciência de quem sabe que vem para ficar. Ou assim espero.

Gosto de rotinas. Dão-me uma estranha sensação de segurança. A rotina que me foi mais fácil de adquirir foi aquela que depende maioritariamente de mim, o meu trabalho. Cumpro os horários com rigor e na pausa para almoço vou aparando as pontas à casa, arrumando uma ou outra caixa que ainda espera na fila, estendendo a roupa, regando as plantas, escrevendo um post. Do que mais gosto de fazer nesta casa, além de abrir as janelas de manhã para deixar entrar o sol (não foi o caso de hoje), é ir estender a roupa à corda do lado de fora. Poder fazer a lida da casa ao ar livre devia ser um direito adquirido. Aposto que se pudesse engomar no quintal também me iria passar a saber bem.

Fora as caixas ainda por arrumar que escondemos na garagem e que vamos buscando à medida que nos vamos lembrando, ou esforçando por lembrar, a casa ficou catita. De uma casa de fim-de-semana meia abandonada nos afectos, à qual prestávamos apenas a atenção que se dá às coisas temporárias, passou a ser uma casa acolhedora, convidativa, reconfortante para a alma, quente para o coração e fresca para a pele, uma casa de família. E com vontade própria. 
Personifiquemos-la, então.
Descobri que a casa é dotada de um humor muito especial. Talvez ache que tem direito ao seu momento de vingança por só agora estarmos a cuidar dela. Talvez seja apenas uma casa como aquelas nos romances latino-americanos, uma mansão com personalidade própria, espírito irreverente e refúgio de segredos e almas penadas. Tirando a parte da mansão, a casa prega-nos partidas. Ainda mal nos tínhamos instalado e já começavam a desaparecer coisas. Não é de estranhar, pensam vocês, acabaram de mudar de casa, têm meia vida enfiada em caixas, esperam encontrar tudo aquilo de que precisam sem vasculharem em, pelo menos, 8 caixas diferentes? Mas quando as coisas desaparecem à nossa frente já começo a franzir o sobrolho. Estava ali e já não está. Primeiro foi a chucha e, de repente, foram todas as outras chuchas, o que deu origem a uma pequena crise resolvida com uma ida de urgência ao único supermercado mais próximo. Depois foram as chaves. Estavam ali e já não estavam. Como um passe de magia, daqueles em que não conseguimos descortinar o truque, mas sabemos que ele existe, as coisas desaparecem. Eu acho-lhe piada, à casa, convivemos muito e acho que já nos entendemos. Ela também já deve começar a gostar mais de mim porque, aos poucos, durante esta semana, começou-me a devolver as coisas perdidas, uma chucha aqui, um casaco aqui, estou certa que as chaves ainda hão-de aparecer, cuspidas de um qualquer buraco negro escondido atrás de uma porta.
Às vezes também há barulhos. De noite ou de dia oiço a casa a respirar. Vou aprendendo a relaxar e a aceitar estes barulhos como sinais de uma nova vida, uma vida sem vizinhos barulhentos ou obras por cima das nossas cabeças. Uma vida sossegada em que de manhã, quando não chove, ainda dá para a mais velha andar um pouco de bicicleta antes da escola. E, depois da escola, tem havido sempre um pouco de praia à tarde. Esperemos que a chuva dê tréguas e nos permita seguir esta nova rotina mais um pouco. Porque esta casa também se vive muito bem lá fora. E nos estava a saber bem.


P.S.- Enganei-vos bem, mas não sei de quem é a casa da foto.

25 de Agosto de 2014

Sem título

No espaço de 24 horas tenho 1500 palavras para traduzir, um velório, um funeral e uma mudança para fazer. Esta tarde, já com isto tudo na mira, gastei mais tempo do que queria a reencaminhar a tralha a quem lhe dê uso efetivo, mas às tantas fartei-me e deitei um saco de botas ainda  em bom estado diretamente para o lixo. Por mais tralha que deite fora, continuo a sentir que tenho tralha a mais e começo a desconfiar que o segredo não estará tanto em destralhar, mas em não comprar. Vou pensar muito bem nisto e voltarei aqui para falar sobre o assunto com mais vagar. Entretanto, estou a caminho de um velório. Sobre isso também farei mais tarde um post. Vou chamá-lo "o ano da morte das minhas avós".

21 de Agosto de 2014

É o princípio de alguma coisa

Foi preciso mudarmos para uma casa maior para o homem empregar, de sua livre e espontânea vontade, o verbo "destralhar" na primeira pessoa do plural do futuro próximo.

Demorei dois anos a conseguir isto. Ironicamente, a primeira coisa de que se quer livrar é da fritadeira inteligente que frita batata doce sem gordura quase nenhuma. Por pura vingança, convenci-o de que não precisávamos do micro-ondas (ninguém precisa, na verdade).

Esperam-se grandes feitos nesta família.

20 de Agosto de 2014

Feliz é o ignorante

Eu já antes sentia que seria muito mais feliz se não visse ou ouvisse as notícias. Mas desde que estoirou a notícia da bebé que morreu com água a ferver, seguida da mulher a quem encharcaram de álcool e atearam fogo, à mulher e ao filho de sete meses mortos no último ataque na Palestina, ao jornalista decapitado na Síria, isto só para falar no que mais me chocou nos últimos três dias e sem contar com a perigosíssima epidemia do ébola que nem quero pensar se alastra até nós, que ando a congeminar uma maneira de ficar um mês sem saber o que se passa fora do meu perímetro familiar. Em vez de mudar de casa para um sítio mais pacato, mas aonde as notícias chegam à mesma velocidade, devia mudar para a Antártida ou algo que o valha. É que, quando me ponho a imaginar o sofrimento dos que morreram de uma maneira atroz, sou assolada por uma ansiedade maior do que aquela que julgo aguentar. Quero parar com isto. Quero parar com a maldade no mundo. Quero parar com bebés que têm maus pais ou mães inocentes que estão no sítio errado  à hora errada. Não quero ver mais o telejornal ou ouvir rádio até que a maldade se evapore do mundo, pronto.

E vão ver como o meu índice de felicidade dispara em flecha.


É claro que isto é só uma ideia estúpida.

13 de Agosto de 2014

Descubra o que há de errado

Diz-me a Inês:

- Mamã, eu às vezes zango-me contigo, mas gosto de ti à mesma!

(Não há aqui papéis trocados?)