20 de Agosto de 2014

Feliz é o ignorante

Eu já antes sentia que seria muito mais feliz se não visse ou ouvisse as notícias. Mas desde que estoirou a notícia da bebé que morreu com água a ferver, seguida da mulher a quem encharcaram de álcool e atearam fogo, à mulher e ao filho de sete meses mortos no último ataque na Palestina, ao jornalista decapitado na Síria, isto só para falar no que mais me chocou nos últimos três dias e sem contar com a perigosíssima epidemia do ébola que nem quero pensar se alastra até nós, que ando a congeminar uma maneira de ficar um mês sem saber o que se passa fora do meu perímetro familiar. Em vez de mudar de casa para um sítio mais pacato, mas aonde as notícias chegam à mesma velocidade, devia mudar para a Antártida ou algo que o valha. É que, quando me ponho a imaginar o sofrimento dos que morreram de uma maneira atroz, sou assolada por uma ansiedade maior do que aquela que julgo aguentar. Quero parar com isto. Quero parar com a maldade no mundo. Quero parar com bebés que têm maus pais ou mães inocentes que estão no sítio errado  à hora errada. Não quero ver mais o telejornal ou ouvir rádio até que a maldade se evapore do mundo, pronto.

E vão ver como o meu índice de felicidade dispara em flecha.


É claro que isto é só uma ideia estúpida.

13 de Agosto de 2014

Descubra o que há de errado

Diz-me a Inês:

- Mamã, eu às vezes zango-me contigo, mas gosto de ti à mesma!

(Não há aqui papéis trocados?)

12 de Agosto de 2014

Ainda a centopeia

O segundo momento mais engraçado da história da centopeia (a seguir ao histerismo feminino colectivo que só teve piada depois de passado o perigo) é capaz de ter sido o momento em que destapei a Alice no hospital. Ela estava enroscadinha no ovinho a dormir e tinha-a tapado por causa do vento lá fora. Quando, na triagem, explico que a Alice tinha sido picada por uma centopeia e a enfermeira arregala logo os olhos, a destapo e damos de caras com uma bebé cheia de picadas (de melgas, mas isso a enfermeira não sabia) na cara, nos braços, nas pernas e a enfermeira quase salta da cadeira e emite um esgar de arrepio, e eu digo, muito despreocupadamente, "ah, não é isto, isto foi só uma melga, a centopeia foi nas virilhas" e a enfermeira fica confusa, esse sim foi aquele momento em que me apeteceu mandar uma grande gargalhada.

Entretanto, não acham que esta história da centopeia dava uma bela BD da Marvel? A história da menina que é picada por uma centopeia em bebé que lhe concede poderes que ficam, contudo, ocultos e só se revelam no dia em que a menina faz 20 anos. Ninguém quer pegar nisso, não?

10 de Agosto de 2014

Centopeias

Que não se pense que não ando por cá, que fugi ou fui de férias, que encerrei o estaminé ou perdi a vontade. Ando por aqui e tenho muita coisa para contar. Na verdade, há algum tempo que não tinha assim tanto para contar. Por exemplo, hoje a Alice teve uma centopeia na fralda que a picou em quatro sítios e nos obrigou a ir ao hospital rir um bocadinho do insólito com uma médica com a idade que eu tinha há dez anos atrás. Como vêm, falta de coisas para contar não há. Não há é tempo para as contar, apesar de Agosto, ou capacidade para as contar antes do tempo, porque nem tudo depende de nós. Grandes reviravoltas implicam, normalmente, grandes necessidades de reflexão. Quando perceber melhor o meu lugar no mundo no meio de tantas mudanças, virei cá falar sobre a minha nova vida.

Até lá, virei apenas deslumbrar-vos sobre as coisas vãs e banais que me acontecem regularmente. Como descobrir uma centopeia na fralda da mais nova. A quem é que nunca aconteceu isto?

3 de Agosto de 2014

A morte no mundo dos contos de fadas

A ver a notícia de mais um bombardeamento de uma escola em Gaza.

- Mamã, aqueles senhores estão a apanhar o quê?
- Pessoas que morreram, querida.
- Ah, eu sei o que é morrer. Eles tocaram numa roca, pois foi?

(Não fosse o contexto tão triste e teria sorrido.)

29 de Julho de 2014

8 meses


Ainda ontem, antes de deitar, conversávamos sobre como conseguimos fabricar duas filhas lindas e como a Alice, contra todas as minhas expectativas, mas a favor de todas as expectativas do pai (claro!), é uma bebé super, super, super calma, tão, mas tão fácil que mete nojo. Por exemplo, já lhe nasceu um dente e só demos conta porque lhe vi um alto nas gengivas. Ou quando acorda a meio da noite com os pesadelos da irmã e, em vez de chorar com sono, sorri se nos aproximamos do berço. No geral, reclama, portanto, muito pouco. Tão pouco que no outro dia, quando se fartou de chorar porque lhe pus um creme que claramente lhe ardeu no rabinho, fiquei verdadeiramente aflita porque, em 8 meses, nunca a tinha visto chorar assim.
Agora já vamos dar com ela no corredor a explorar as imensas possibilidades da casa naquilo que é uma maneira muito própria que arranjou para se arrastar/gatinhar. Não por falta de exemplos. Ainda ontem o pai chegou a casa e estava mãe, irmã e gato de roda dela a ensiná-la pelo exemplo... 

Por falar no gato, está a ser uma delícia vê-los juntos. Com as devidas precauções, porque não deixa de ser um animal, tenho-os deixado dar todos os beijinhos que lhes apetece. Ela fica doida quando o vê e ele já deixou de dormir connosco para se enfiar na cama dela. Desconfio que vai sair daqui um amor destes.



26 de Julho de 2014

Eu sabia que havia uma razão para querer ter meninos

Na praia:

- Ai, a água está gelada! 
- Ai, pisei uma coisa!
- Ai, tenho areia no pé! (...)
- A toalha tem areia, tira!
- Isto está cheio de areia, que nojo!

Isto aconteceu só nos últimos dez minutos. O pai foi fazer paddle surf e só volta daqui a uma hora. 

Estou a pensar num plano de fuga.

25 de Julho de 2014

O mundo gira à volta das crianças

(o pai a conduzir)

- Paaaiiii, podes meter a Xana Toc Toc?
- Posso sim, Inês. Já vai.
(repetir o mesmo 3 vezes num minuto)

- Inês! Já vai! Tens de ter paciência. O mundo não gira à tua volta
- Ai, gira gira!
- Não gira, não.
- Gira, sim! (pausa) O mundo gira à volta das crianças!

(pausa)

- Toma lá a Xana Toc Toc.

20 de Julho de 2014

Com a calma do caracol


Há um lugar para onde costumamos ir aos fins-de-semana onde o tempo anda mais devagar. Neste lugar, a roupa cora ao sol no estendal preso nas árvores e o vento abana aquela portada que fica sempre mal presa. Acordamos sempre todos muito cedo porque o sol entre pelas frestas das portadas e as crianças ganham imediatamente vontade de serem crianças. Da janela do quarto delas vemos o poço e as laranjeiras. O gato, que por ali anda atrás dos outros gatos, ainda tem medo do cão, mas já não se eriça tanto. Vai-se habituando, também ele, à nova calma.


Os pequenos-almoços são ricos, com ovos, tomate e fruta do cabaz biológico que vieram entregar na sexta à noite, e chá feito com folhas verdadeiras de hortelã e erva cidreira. Quando estamos sem imaginação, energia ou cabazes, vamos ao café comer, onde sabem o nome das minhas filhas e, descobri eu ontem, também sabem onde moramos. Há-de ter as suas vantagens morar num meio pequeno. Penso sempre que, num momento de aflição, não me faltará quem me possa acudir. Por outro lado, tenho de ter muito cuidado com quem meto dentro de casa para me passar a roupa...

Nos dias de calor convidamos os amigos, montamos a piscina no quintal, comemos lá fora e deixamo-nos ir ao sabor dos dias pachorrentos. Todos gostam muito de nos vir visitar e nós gostamos cada vez mais de estar aqui, neste lugar que deixará de servir apenas aos fins-de-semana para tomar o carácter permanente e definitivo das casas que marcam uma vida.

As obras que estavam previstas para agora foram uma grande dor de cabeça e não vão começar. Decidi ontem, enquanto lavava os dentes antes de ir para a cama, que talvez fosse melhor adiá-las para o ano, deixemo-nos instalar e recuperar da mudança e ao longo do inverno logo prepararemos as obras melhor, sem pressão deste ou daquele, sem mais stresses, sem decisões precipitadas. Às vezes, para dar um passo em frente, é preciso parar e respirar e deixar as coisas tomarem o seu lugar ao seu ritmo. Vai-se a ver e os lugares-comuns também encerram muita verdade.

Disse-lho e também ele pareceu ficar muito aliviado. Como é que não tínhamos pensado nisto antes, é coisa que me ultrapassa.
Só temos é de voltar a pintar a parede.