22 de janeiro de 2015

Mas quem é que ainda lê (livros)?

No cabeleireiro, saco do meu livro enquanto espero que a tinta faça efeito.
- Quer uma revista?
Mostro-lhe o livro.
- Ah, tem um livro. Mas se quiser uma revista, diga.
Passados 2 minutos: 
- Tem a certeza de que não quer uma revista?

14 de janeiro de 2015

Da sensibilidade

Diálogo anos balneários da piscina:

Eu: Inês, porque é que não quiseste dar mergulhos?
Inês: Porque me entra água para o nariz.
Eu: Mas o professor já te ensinou um truque para isso. Tens de aprender a mergulhar para, no Verão, poderes dar mergulhos na praia.
Inês: Mas eu não quero dar mergulhos no mar. Há tubarões!
Eu: Não há nada. Eu já te expliquei que na praia de Sesimbra não há tubarões.

Diz a senhora que estava ao lado a vestir o neto:
- Ai, há, há! Ainda no ano passado apareceu um no Cabo Espichel, não viu as notícias? E o meu irmão, que faz mergulho, também já viu um tubarão martelo. Ai não que não há tubarões...

Ele há gente que tem uma sensibilidade inata, disso não há dúvida.

12 de janeiro de 2015

Os animais são nossos amigos

Acabei de apanhar, na minha cozinha, uma espécie de mini-escorpião com cauda bifurcada, com uma folha de papel, com todo o cuidado para não o magoar, e deitá-lo à rua.

O campo está-me a mudar. Não tarda e estou a apanhar louva-deus com a mão.

Not.

8 de janeiro de 2015

(entretanto)

(entretanto pus-me a escolher fotos. e oh, mas oh que excelente exercício para nos deixar com um sorriso nos lábios durante, pelo menos, duas horas!)












Ideias que me "tiram do sério"



Sair da minha zona de conforto não é só correr ou deixar de esconder a minha pequena deficiência. Há uma coisa que me deixa extremamente angustiada, mas que, em contrapartida, faz a minha filha extremamente feliz: ir à escola ler uma história aos meninos. Santo deus, só de pensar nisto fico com azia. Eu costumo dizer que não tenho jeito para crianças, só para as minhas, porque são minhas e uma pessoa perde a vergonha com os da casa. Com todas as outras crianças, chego a ter medo que se metam comigo. Isto é uma parvoíce, claro, porque as crianças não estão nem aí para a minha vergonha. E a primeira vez que fui ler uma história à sala da Inês, o ano passado, foi uma experiência fascinante. Não só consegui com que os miúdos estivessem sossegados a ouvir, como no fim eles interagiram muito bem e adoraram as fotografias de animais selvagens que levei (tinha a ver com a história e com o projecto anual). Depois até fiquei com pena de só ter ido ler a história no fim do ano lectivo e de não poder repetir, mas prometi a mim mesma que todos os anos iria à sala da Inês (e da Alice quando ela for mais velha) ler uma história aos meninos.

Este ano lectivo ainda não tinha tido coragem. O tema do projecto não tem muito a ver comigo e usei-o como desculpa para ainda não ter proposto nenhuma actividade à educadora. Mas no primeiro dia de aulas de Janeiro, ganhei coragem e sugeri à educadora ir ler uma história que não tenha a ver com o projecto. Ela aceitou (na verdade, ficou toda contente, não devem ser muitos os pais que têm tempo para ir ler uma história às 10 da manhã) e marcámos para a semana.

Confesso, estou a tremer. Não só tenho de ler uma história, como também de fazer uma actividade relacionada com a história. Mas sei que, no final, a experiência vai ser mais do que positiva, vou ficar muito satisfeita comigo, por ter conseguido, e vou deixar a Inês muito orgulhosa da sua mamã.

Então, como este ano optei pelo tema "Felicidade", pensei levar um de dois livros que tenho lido à Inês que tratam deste tema. São eles:


Depois, pensei em fazer uma actividade de desenho, pintura e colagem com eles, na qual lhes proponho que pensem no que os faz feliz (comer um gelado, ir à praia, dormir em casa dos avós, etc.), fazer um desenho alusivo e depois colar todos os desenhos numa cartolina gigante. Seria o placard da felicidade, com inúmeras sugestões. Para tirar ideias, trouxe da biblioteca um livro que ao princípio me pareceu parvo, mas agora há livros que ensinam a fazer coisas com os filhos?, mas que, ao folheá-lo, me apercebi que tem ideias muito giras para sermos uma família criativa.


Chama-se "365 actividades para fazer com os seus filhos" e, à falta de imagens no livro, há um blogue que complementa o livro. Espreitem aqui.
Encontrei imensas ideias para desenvolver o tema da felicidade, tais como o caderno das coisas boas (um pouco à semelhança do Livrinho da Gratidão), o quadro dos sonhos, o livro da minha vida, o pote das coisas de que mais gostamos, jogo do abecedário da gratidão, e imensas outras actividades de pintura e manualidades, reciclagem e jogos. Acho que não consigo retirar grande coisa para a sala de aula, mas consigo certamente retirar ideias cá para casa.. Inclusivamente, já pus a miúda em pulgas com a ideia de fazermos um caderno da felicidade com base em fotografias dela a fazer as coisas de que mais gosta. Tanto que hoje de manhã me perguntou: "Mamã, depois da escola podemos ir à loja imprimir as fotografias?"
Raça da miúda.

6 de janeiro de 2015

What goes around, comes around - visto pelo prisma positivo

Nas minhas leituras sobre psicologia positiva e a forma como posso ensinar o meu cérebro a pensar de forma positiva, um autor leva ao outro, vejo este vídeo e aqueloutro, e há certos termos e sugestões que saltam à vista. Uma das coisas que me tem chamado à atenção, e que vejo recorrentemente, além da gratidão e da meditação, são os actos aleatórios de bondade (Random Acts of Kindness) e a forma como os nossos comportamentos podem gerar o efeito bola de neve.
Ao pensar nas estratégias profissionais a tomar este ano, o Tiago sugeriu que podia enviar um e-mail de bom ano a todos os meus clientes e gestores de projectos das várias empresas de tradução com quem já contactei, por forma a fazê-los lembrarem-se de mim. Muitas vezes, estas agências trabalham com listas de tradutores que vão contactando conforme a necessidade aperta. Ora, se eu não estiver nos primeiros lugares dessas listas, só serei contactada em última necessidade, duas ou três vezes por ano. Não é esse, de todo, o meu objectivo para ter uma carreira bem-sucedida.
Achei uma boa ideia e resolvi despender uma hora a enviar e-mails personalizados apenas a desejar um bom ano a toda a equipa e desejos de uma boa colaboração profissional entre nós.
Acho que não estava à espera que me respondessem. Pensei que tivessem mais que fazer do que responder a e-mails de bom ano, mas a verdade é que esta acção surtiu mesmo o efeito desejado. Nem todos me responderam, claro, alguns talvez ainda o farão. Outros não. Mas alguns, talvez metade, respondeu a agradecer e desejar-me os mesmos votos de volta, comentando ainda que "ainda hoje tínhamos falado em si", o que eu não sei se é verdade, mas mesmo que não seja, dá que pensar. Se eu tivesse ficado quieta, este gestor de projectos até podia ter pensado em mim para um determinado trabalho, mas logo cairia em saco roto se, por acaso, não tivesse recebido um e-mail exactamente da pessoa em quem tinha pensado para aquele trabalho.
Pelo caminho, resolvi enviar também votos de bom ano aos meus antigos chefes, por sentir que as coisas tinham ficado mal resolvidas entre nós e me querer livrar deste peso. E-mail para aqui, e-mail para ali, e parece que afinal está tudo bem e que os mal-entendidos ficaram lá longe em 2014.

Os anglófonos têm uma expressão que designa exactamente aquilo que consegui com estes insignificantes e-mails: "to set things in motion". Pôr as coisas a andar, em movimento, desencadear alguma coisa que, neste caso, só pode ser boa.

Depois fui correr o meu segundo treino do ano e foi um treino de merda e fiquei tão cansada com tanta dor no pé que pensei "mas que raio de resolução" e só me apeteceu chorar, mas, pronto, não, a gente não desmotiva.

4 de janeiro de 2015

Este ano vai ser diferente

Se ainda estivesse a trabalhar por conta de outrem, neste momento (às 16:15 de domingo) estaria a entrar no modo neura porque amanhã recomeça a semana de trabalho, principalmente depois desta época festiva, em que as miúdas ficaram em casa e o pouco trabalho que tive me deu um gostinho de férias. Logo à noite, estaria insuportável, ansiosa e deprimida, simplesmente porque amanhã tenho de voltar ao trabalho, sentar-me ao computador, deixar de fazer as coisas de que gosto para passar o dia a traduzir textos aborrecidos. Iria passar o dia a suspirar, com um mau-humor descomunal e a contar as horas para me ir embora.

Tenho a certeza de que sabem do que estou a falar.

Mas este ano não sinto nada disso. Confesso até que estou ansiosa pela positiva, excitada por finalmente retomar a rotina, expectante para ver que trabalhos me calharão na rifa ou que clientes me contactarão. Não espero ter muito trabalho este mês. Como já aqui disse, Janeiro costuma ser um mês meio parado no mundo da tradução. Mas, em vez de me lamentar, vou investir o tempo naqueles trabalhos que não pagam a curto prazo, como organizar e optimizar o meu sistema de trabalho, preparar notas de honorários e facturas predefinidas, melhorar o meu website profissional para poder, finalmente, mostrá-lo ao mundo (na verdade, já está online, mas ainda está longe de ser perfeito) e preparar uma nova estratégia de marketing dos meus serviços.

É por estas e por outras que não me arrependo da decisão que tomei há uns meses de me tornar freelancer. É claro que, em termos financeiros, um mês com pouco trabalho não augura nada de bom, e mentiria se dissesse que não estou preocupada com isso. Mas aprendi que há outras coisas que compensam a falta de dinheiro para extras, desde que haja dinheiro para o essencial, e isso felizmente não faltará. A liberdade que sinto e a alegria pelo que faço são a melhor recompensa.

Por isso, e porque ainda tenho dúvidas sobre a melhor forma de abordar uma carreira freelance bem-sucedida, contribuí para que o projecto da Monika Kanokova vá para a frente, um livro, intitulado "This year will be different" que reúne entrevistas a mulheres empreendedoras (inclusive a uma portuguesa) que se tornaram freelancers, com truques e dicas para ser bem-sucedida. O sucesso no feminino para quem, como me aconteceu a mim, sente que tem de dar o passo, mas não sabe como ou não tem coragem. Sei, pelo menos, de uma querida leitora que anda a pensar nisto. Toma, é para ti.

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Para saber como contribuir, saibam mais aqui. Eu já tenho o meu exemplar digital assegurado.
Este ano vai mesmo ser diferente.

3 de janeiro de 2015

Na semana da Gratidão

Ia chorando* quando me apercebi que a Inês já não trazia o cachecol de crochet que fiz para ela quando estava grávida da Alice. A minha primeira peça de croché. Eu, que não sou nada apegada às coisas, vejo-me muito comichosa quando se trata de coisas feitas à mão por mim. E foi por isso que chegar ao carro e ter esta surpresa

me encheu o coração.
Alguém tinha encontrado o cachecol e adivinhado que era nosso. Ia chorando* outra vez, mas desta feita por gratidão. Nem de propósito. Seria tão bom que o meu livrinho da gratidão se começasse a encher de coisas bonitas como esta.


* que é como quem diz... Posso andar a ler tolices delicodoces sobre felicidade e hábitos zen, mas ainda não me emociono com imagens de cãezinhos Scottex, sim?

2 de janeiro de 2015

Diário da felicidade


  


O ano não começou assim. Mas como prometi ao Tal Ben-Shahar que ia passar a estar grata pelas coisas boas que me acontecem, celebro publicamente o pequeno momento de união familiar durante o nosso passeio de Ano Novo pela, cito, "floresta assustadora cheia de lobos esfomeados" aqui ao pé de casa para apanhar pinhas.


Contexto

O Tal Ben-Shahar foi professor de Psicologia Positiva em Harvard e é o autor de best sellers sobre a temática da felicidade. Num dos seus livros, Even Happier, Tal Ben-Shahar incita os seus leitores a manterem uma espécie de diário da felicidade, em que registam, semanalmente, as coisas pelas quais estão gratos e diversos pensamentos e exercícios propostos pelo autor para cada semana. Assim, a Semana Um foca-se na Gratidão, a Semana Dois nos Rituais, a Semana Três no Exercício Físico, e assim por diante, durante 52 semanas. Se quiserem conhecer outras versões deste projecto, a Mum´s the Boss já o pôs em prática em 2012. 
Paralelamente, e porque ressuscitei o meu Kindle dos mortos, estou a reler o The Happiness Project da Gretchen Rubin e a tirar as devidas notas digitais e mentais para o primeiro mês do ano. Voltarei a falar disto mais tarde.
No campo profissional, o meu homem trouxe ao meu mundo a Passion Planner, à qual estou a decicar a máxima atenção para tirar o melhor partido de uma agenda que é muito mais do que um calendário: para além da calendarização normal de tarefas, permite elaborar listas de coisas para fazer, a nível pessoal e profissional, fazer listas de desejos e prioridades, criar um plano para alcançar os nossos objectivos, e fazer um balanço no final do mês. Vou experimentar primeiro a versão PDF (disponível aqui, se partilharem o projecto com os vossos amigos no Facebook) e, se me der bem, talvez compre a versão encadernada.

29 de dezembro de 2014

Não são resoluções, são prioridades

Tenho pensado muito sobre o novo ano e o que eu quero que seja diferente no futuro. Não gosto de retrospectivas, mas 2014 foi um ano de mudanças - de casa, de distrito, de emprego - mudanças sérias na vida de uma pessoa. Ainda me estou a adaptar a essas mudanças e a tentar contornar alguns contratempos, como o facto de trabalhar em casa num meio pequeno a 45 minutos de Lisboa, sem trânsito, ser tão diferente de trabalhar em casa nos agitados subúrbios a 5 minutos de Lisboa. Mas sobre isso falarei mais tarde, pois estou a criar subterfúgios que me permitam sentir-me mais acompanhada.
Mas tudo isto vem com o tempo, assim como o construir uma rede sólida de clientes que me permita ter um fluxo de trabalho constante. Isso ainda não aconteceu. Tenho andado muito ao sabor da maré e a tentar perceber as flutuações do mercado. Ora não tenho mãos a medir, ora não tenho trabalho durante dias a fio. Sei que o mercado demora tempo a reagir e já tenho alguns trunfos na manga, alguns bons clientes com bons trabalhos e boas tarifas que ficaram contentes com o meu trabalho, mas que precisam de algum tempo para perceberem que me devem colocar na lista de tradutores preferenciais. Tudo isto leva o seu tempo, claro. Afinal, só estou por minha conta há três meses. Pela minha experiência, em Janeiro o mercado da tradução estará mais ou menos estagnado, por isso, em vez de andar a chorar pelos cantos, vou aproveitar o tempo para me dedicar à legendagem (que paga muitooo mal, mas é tão giro!), aos meus projectos pessoais e... às minhas resoluções.

Não são bem resoluções. Este ano, não me fez muito sentido fazer uma lista de coisas como ler mais, comer melhor, fazer mais desporto, fazer mais sexo. É claro que quero isso tudo, não necessariamente por esta ordem. Mas este ano sinto necessidade de, muito mais do que introduzir novos hábitos, mudar aquilo que não está bem. Comecei, então, a pensar no que não está bem. Pensei em como me tenho sentido ultimamente, comigo mesma e na minha relação com os outros, ou melhor, com a família mais próxima.
E a verdade é que me tenho sentido frequentemente muito infeliz. Zangada com a vida. Impaciente. Aborrecida. Colérica. A mais velha tem-me dado cabo do juízo com a forma peçonhenta como lida com a irmã mais nova. Eu tendo a sair em defesa da mais pequena, mas depois vem o pai e alerta-me para os perigos do meu comportamento. E depois ela porta-se mal, muito mal, mal ao ponto de estarmos a jantar com amigos e não conseguirmos conversar, e eu pergunto-me se não estará apenas a chamar a atenção. Não há dúvidas de que está. E eu pareço que ando sempre zangada com ela.
Ontem foi um dia especialmente mau. Depois de uma noite de apenas três horas de sono por causa de alguma coisa que afligiu a mais nova, coube-me a mim sair de casa com elas para o pai poder trabalhar descansado. Não vou descrever em pormenor o que aconteceu nas três horas que se seguiram e que incluíram um almoço desastroso, mas digamos que foi bastante aborrecido. As duas estavam nos seus piores dias e eu, privada de sono e de amor-próprio, cheguei àquele ponto em que comecei a ficar com os olhos marejados de lágrimas e tive sérias dificuldades em disfarçar.
Então,  percebi. Percebi que tem havido um conflito constante no meu interior. Ora advogo as premissas da parentalidade positiva, ora desato a berrar quando ela faz disparates. Ora me ponho a ler as lamechices do Doutor Carlos González, ora sou de palmada fácil. E depois fico angustiada comigo própria e tenho insónias à conta disto. O não agir em consonância com aquilo em que acredito faz-me deixar de acreditar em mim, desacredita-me como mãe, como pessoa. E torna-me infeliz.

Mais do que uma resolução, esta vai ser a minha prioridade para 2015: agir de acordo com as minhas convicções, agir como me quero sentir, especialmente no que diz respeito à forma como educo as minhas filhas. Por muito que custe, e vai custar, e não vou conseguir sempre, mas quero focar-me nisso no início do ano, arranjar estratégias que me ajudem, para que as coisas comecem a fluir mais do meu agrado ao longo do ano.

A segunda prioridade, e fiquemos por aqui porque estas duas já me vão dar muito trabalho, tem a ver com a minha zona de conforto e os meus complexos. Para quem não está a par da minha história, pode lê-la aqui. Quem me conhece bem sabe que, até há alguns anos, eu não ia à praia, ou ia a muito custo e só com pessoas da máxima confiança, Sabe também que deixei de usar saias aos 12 anos, que não tomava banho em ginásios, que não corria, que não fazia ioga ou qualquer outra coisa que expusesse o meu pé e a minha perna a olhares e julgamentos. Porque as pessoas descriminam sem dar por isso. Está-nos no sangue, acho. A maior parte não faz por mal. Mas dói. Cresci a ouvir familiares, vizinhos, amigos dos meus pais, pessoas adultas portanto, a rotularem-me de "coitadinha" e "deficiente". Cresci a pensar que não podia correr nem fazer grandes caminhadas porque me doía o pé. E doía. Mas, já em adulta, fui percebendo que, por muito que me doesse ao princípio, o treino acabaria por mitigar as dores e quando comecei a correr, com motivos muito para além do estar em forma ou perder peso, comecei a acreditar que era possível, que afinal eu era igual aos outros, conseguia correr três, cinco, oito quilómetros, ainda que com dores, ainda que mais devagar, mas conseguia. Foi um grande passo para mim e para a minha auto-estima. É claro que precisei de alguma ajuda especialista nesse campo e foi graças a essa ajuda que comprei o meu primeiro vestido e o usei com botas altas há dois Invernos. Continuo a esconder, continuo a disfarçar, mas já não disfarço completamente e já não me importa muito se alguém estiver a olhar para as minhas pernas porque há algo de estranho ali, mesmo com botas. Já não quero saber o que pensam. Pelo menos no Inverno...

Mas houve um dia que, enquanto corria, um instrutor de desporto veio ter comigo perguntar se estava lesionada. Reagi bastante bem, contei-lhe o meu problema (há uns anos teria simplesmente inventado uma lesão) e falámos sobre como podia correr sem maltratar a coluna. Infelizmente, depois nunca mais consegui correr. O facto de alguém ter reparado que arrastava uma perna ao fim de três quilómetros foi o suficiente para perder a coragem de me continuar a expor. Voltei à minha zona de conforto e dela não saio há quase um ano. Entretanto, voltei ao ginásio, mas há pequenas nuances no meu comportamento no ginásio que indicam que estou prestes a deixar de lutar contra os meus complexos, como o facto de não tomar banho no ginásio. Uma coisa leva à outra e sei que, se continuar assim, todo o trabalho psicológico feito ao longo de dois anos vai por água abaixo, se não me obrigar a sair da minha zona de conforto de novo. Para ajudar à festa, no outro dia li este artigo no Público, pensei, porra, há gente com coragem e tive vergonha de mim por ter perdido a coragem.

E é por isso que vou voltar a correr. Não é por ser o desporto da moda agora (parece que ultimamente toda a gente começou a correr e a comer pão sem glúten), não é para emagrecer (se bem que, depois deste Natal...), não é para poupar dinheiro no ginásio. É mesmo para mostrar a mim própria que não há assim nada de tão errado comigo e que, pois claro, eu também sou capaz. Em suma, para ter mais confiança em mim. No fundo, para ser mais feliz.

Bom Ano.