20 de Julho de 2014

Com a calma do caracol


Há um lugar para onde costumamos ir aos fins-de-semana onde o tempo anda mais devagar. Neste lugar, a roupa cora ao sol no estendal preso nas árvores e o vento abana aquela portada que fica sempre mal presa. Acordamos sempre todos muito cedo porque o sol entre pelas frestas das portadas e as crianças ganham imediatamente vontade de serem crianças. Da janela do quarto delas vemos o poço e as laranjeiras. O gato, que por ali anda atrás dos outros gatos, ainda tem medo do cão, mas já não se eriça tanto. Vai-se habituando, também ele, à nova calma.


Os pequenos-almoços são ricos, com ovos, tomate e fruta do cabaz biológico que vieram entregar na sexta à noite, e chá feito com folhas verdadeiras de hortelã e erva cidreira. Quando estamos sem imaginação, energia ou cabazes, vamos ao café comer, onde sabem o nome das minhas filhas e, descobri eu ontem, também sabem onde moramos. Há-de ter as suas vantagens morar num meio pequeno. Penso sempre que, num momento de aflição, não me faltará quem me possa acudir. Por outro lado, tenho de ter muito cuidado com quem meto dentro de casa para me passar a roupa...

Nos dias de calor convidamos os amigos, montamos a piscina no quintal, comemos lá fora e deixamo-nos ir ao sabor dos dias pachorrentos. Todos gostam muito de nos vir visitar e nós gostamos cada vez mais de estar aqui, neste lugar que deixará de servir apenas aos fins-de-semana para tomar o carácter permanente e definitivo das casas que marcam uma vida.

As obras que estavam previstas para agora foram uma grande dor de cabeça e não vão começar. Decidi ontem, enquanto lavava os dentes antes de ir para a cama, que talvez fosse melhor adiá-las para o ano, deixemo-nos instalar e recuperar da mudança e ao longo do inverno logo prepararemos as obras melhor, sem pressão deste ou daquele, sem mais stresses, sem decisões precipitadas. Às vezes, para dar um passo em frente, é preciso parar e respirar e deixar as coisas tomarem o seu lugar ao seu ritmo. Vai-se a ver e os lugares-comuns também encerram muita verdade.

Disse-lho e também ele pareceu ficar muito aliviado. Como é que não tínhamos pensado nisto antes, é coisa que me ultrapassa.
Só temos é de voltar a pintar a parede.


18 de Julho de 2014

...

Dói-me o coração só de pensar nas pessoas que iam naquele avião, quanto mais ver intencionalmente a capa do Correio da Manhã. Só por isso não há link. Já basta a maldade que há no mundo e a pouca sorte de uns. Aqui já há link. E outra dor de coração.

(Eu ia escrever mais uma vez sobre as nossas noites e as horas de sono que durmo, mas depois há notícias que me fazem cair na real e perguntar, enquanto me esbofeteio, mas quem é que está interessado nas horas que dormes por noite, mulher, quem? Vai mas é trabalhar. E fui.)

Turbilhão

Esta semana tem sido um turbilhão. De ideias, de iniciativas, de vontades. Basicamente decidi parar de me queixar. Mas cada coisa a seu tempo. O que vinha aqui dizer é como tenho tido tanta dificuldade em assentar a cabeça na almofada para lá da fronha, que é como quem diz, em parar de pensar e conseguir adormecer. Quando finalmente consigo, aí entre a uma e as duas, sou quase-imediatamente-de seguida acordada por uma das filhas que ou quer leitinho ou está com um dos seus "achaques" (achei que "achaques" despertava mais empatia parental do que dizer simplesmente "pesadelos", pois, a bem dizer, nem sempre são pesadelos, mas isso agora estava aqui a noite toda e tenho de ir dormir). Acabo, invariavelmente, por adormecer perto das três, o que me dá um número de horas de sono por noite de competir com o Marcelo Rebelo de Sousa.
Dizia, tenho de ir dormir. Mas faltam 20 minutos para a hora em que uma delas vai acordar. E estou aqui a pensar no que, tendo eu já feito tudo o que era suposto ter feito hoje, posso eu fazer a esta hora que não me dê mais sono. 
Não me ocorre nada. 
Posto o que só me resta ir dormir e voltar a rezar ao senhor lá de cima para que a noite corra bem, que ontem ele até me ouviu as preces. Mentira. Eu é que já não sei a quantas ando.
Estava agora assim de começar a acreditar nalguma coisa. Mas, na verdade, só quero mesmo é dormir.

16 de Julho de 2014

Saquinho de gomas (ou como dar um péssimo exemplo de parentalidade)

Há três dias que a Alice se mudou para o quarto da irmã. A primeira noite correu bem. A segunda noite foi assim algo entre o terrível e o horrível. Na terceira noite subornei a mais velha com um saco de gomas se não acordasse a irmã. Foi um daqueles momentos em que, assim que formulei o pensamento, percebi que era uma grande burrice, mas isso não me demoveu de a cometer. Sai, portanto, um saco de gomas hoje à tarde. E à noite acho que vou rezar ao senhor para me dar discernimento.

E me enviar tampões de ouvidos mais fortes pelo correio celestial expresso.

15 de Julho de 2014

Dicionário Inês-Português #1

Botas-poças-de-lama = galochas


(Em pleno calor de Julho, ela lembra-se de andar de galochas em casa e eu lembrei-me que, se não me puser a registar estas coisas, não tarda esqueço-me.)

11 de Julho de 2014

A psicologia da tralha

Já se sabe que vou mudar de casa em pouco tempo. Como consequência, estou em mais um processo de destralhamento. Comecei pela roupa, que já doei ou pus de lado para vender, peguei nos cds, livros e dvds e já tenho destino para quase todos. Um ou outro anúncio do Freecycle e também me desfiz de outros objectos que não me farão falta. Há outras coisas que se vão partir convenientemente durante a mudança e ainda outras para as quais arranjarei, certamente, um destino adequado. Mas isto são as minhas coisas e as das miúdas, sobre as quais ainda tenho total controlo. Nem os pertences do felino escaparam. O pior são as coisas do homem da casa: as roupas que ocupam 70% do roupeiro comum, os ténis e sapatos (em quantidade de fazer inveja a qualquer mulher) e os gadgets. É um homem que gosta de estar preparado para todas as eventualidades, nomeadamente todos os pesos: convém ter roupa para os 70 quilos, roupa para os 80 quilos, roupa para os 90 quilos e, não vá o diabo tecê-las, roupa para um peso intermédio. Para não falar na roupa de desporto, mas é melhor nem ir por aí.

É certo que, por ser um adepto incondicional das novas tecnologias, possui muito poucos cds, mas tem, por exemplo, livros em duplicado porque, quando os comprou, não se lembrava que já os tinha, e livros de cozinha que davam para encher uma biblioteca municipal. Por outro lado, como está sempre a par das novas invenções e é pessoa que gosta de ter tudo o que são gadgets, cá há em casa temos pelo menos um dispositivo para, por exemplo, medir a actividade física, desidratar, encher a vácuo e outras coisas mais ou menos inclassificáveis.

Isto tudo dá-me grandes dores de cabeça.
Já concordámos que a casa nova, apesar de ser maior, não tem espaço para tudo pois já tem bastantes coisas e mobília do seu tempo de solteiro que lhes foram oferecidas pela mãe, pela madrinha, pela avó e que, portanto, vão estar no centro de uma verdadeira crise um verdadeiro dilema familiar.

Por conseguinte, estou constantemente a lembrá-lo que tem de dar uma volta aos sacos dele (não vou dizer que são de plástico) onde guarda os papéis para o IRS, ou aos livros do tempo da Maria Cachucha ou àquela roupa que parece saída de uma aldeia algures no Tirol... Mas ele nada. Proibiu-me, inclusivamente, de mexer nas suas coisas e até de deitar fora seja o que for, mesmo que sejam coisas tão úteis como as National Geographic que recebe desde 1988.

Mas depois manda-me este artigo para o mail. Para "reflectir". E eu, que não gosto de me ficar atrás nas respostas, mando-lhe este de volta. Para reflectir.

Depois falamos.

9 de Julho de 2014

É só uma fase

Em circunstância alguma me arrependi alguma vez de ter tido as minhas filhas. Não quando estão doentes e me obrigam a faltar ao trabalho, não ao revolucionarem a minha vida social, não ao contribuírem para o meu cansaço generalizado, não ao me darem mamas de velha, viroses ou até mesmo piolhos. Mas esta noite, enquanto, pela terceira vez, me sentei à beira da cama da Inês, desassossegada pelos gritos, sem saber se devia acordá-la à força do pesadelo ou não, sem perceber se aquele choro iria extrapolar para um terror nocturno a que nos tem vindo a habituar desde Dezembro, já sem dedos das mãos para contar as noites de merda desde que veio de férias com os avós e com a paciência presa por um fio, a invejar a "sorte" do pai dela que pode ficar sempre na cama porque ela só me quer a mim, houve ali um breve momento, uns milissegundos em que me perguntei oh, mas porquê, mas por que é que eu tive filhos? Depois repeti três vezes para mim própria "isto é só uma fase, isto é só uma fase, isto é só uma fase", segurei-lhe a mão e esperei que parasse de gemer para eu voltar, pé ante pé, à minha cama, espreitar a outra a quem os pesadelos ainda tardarão a chegar e readormecer com relativa facilidade.

7 de Julho de 2014

Missão "Adeus parede!"

Isto foi o resultado de uma ideia filha da mãe que tive para a festa que demos este sábado na nossa em breve "casa nova". Esqueci-me de pôr a tocar a playlist que passei uma semana a compor, é certo, mas não me esqueci das tintas, dos pincéis, dos marcadores e das t-shirts velhas para os miúdos poderem dar azo à criatividade! Durante 40 minutos, uma simples parede branca, que vai ser deitada abaixo em breve, foi o centro das atenções de miúdos e graúdos.

O resultado não ficou nada de espectacular (quando os miúdos se põem a misturar as tintas, as cores resultantes não costumam variar muito do acastanhado e aquela mancha ali no meio.... bom...), mas foi bastante divertido e agora funciona como um lembrete constante e bem visível de que temos mesmo de avançar com as obras!

Houve até direito a algumas revelações criativas, como o pequeno G. que fez toda a gente rir com os seus tiques de mini-Picasso. Afinal, não é preciso muito para deixar as crianças serem crianças. Mas, até elas se esquecerem, é melhor esconderem as canetas em vossa casa que não quero ser responsável por remodelações forçadas...





4 de Julho de 2014

Tradutor a dias

Fui contactada por uma empresa de tradução que me ofereceu 3 cêntimos por palavra com a justificação de que a grande oferta obriga a baixar os preços. Respondi educadamente que não podia aceitar semelhantes valores com a justificação de que não me é possível apresentar um trabalho de qualidade a esse preço, independentemente da oferta que ande por aí.

Há uns anos tive uma amena discussão com um amigo que ficou escandalizado quando eu lhe disse que trabalhava com empresas que me pagavam 5 cêntimos. Não sabia eu ainda, muito menos saberia ele, que nos tempos que correm dignifiquei-me e elevei a fasquia para bem mais que isso. Calculo que daria outra amena discussão, caso o assunto viesse novamente à baila.

Estamos a falar de uma profissão qualificada, para a qual estudei e me formei e na qual conto com 7 anos de experiência o que não é mau nem bom, mas estou longe de ser uma simples estagiária. E por isso não admito que me queiram pagar menos do que eu pago à minha empregada doméstica. É que, se formos a fazer bem as contas ao que representa o pagamento de 3 cêntimos por palavra ao final de um mês (tendo em conta que se espera que eu traduza, em média, 2400 palavras por dia, sem contar com o tempo dispensado para a revisão e a indispensável leitura final), subtraindo aquilo que um freelancer tem de pagar de IVA, à segurança social, ao seguro de acidentes de trabalho que é obrigado a ter e mais o diabo a sete (férias, direito a baixa que ninguém lhes paga, bla bla bla...), o resultado é bem menos do que recebe a minha mulher a dias. E, se eu acho que ir limpar escadas não é mais ou menos desdignificante do que traduzir, também não acho que traduzir seja mais ou menos desdignificante do que ser consultor, como o amigo lá em cima. E se é para ser mal paga, mais vale ir tratar da casa dos outros que sempre mexo mais o rabo e aprendo a tirar nódoas difíceis.

3 de Julho de 2014

Democracia na linguagem #2

*
- Olha uma ambulância, mamã! Se calhar os bombeiros vão pagar o fogo.
- Apagar o fogo.
- Pagar o fogo!
- Não. Diz-se "a-pa-gar o fogo". É assim que se diz correctamente.
- Mas cada um diz como quiser, ora!


(*daquelas coisas a que só os pais acham piada...)